euroace
Alentejo Hoje

A FACE OCULTA

A BANDEIRA DO CHINELO…

A aula do Curso de Pós-Graduação em Inspeção da Educação da Universidade de Évora havia terminado há cerca de quinze minutos, nas instalações do Centro Cultural Português, em São Tomé. Eram cerca de vinte e duas horas e quinze minutos. Naquela noite, tranquila e quente, como é frequente o Equador, viam-se poucas pessoas na rua. Nem o vento por ali passava.

Artigo de Opinião de Bravo Nico (Professor da Universidade de Évora)

22 Outubro 2018 | Publicado : 15:42 (22/10/2018) | Actualizado: 15:54 (22/10/2018)

Ao atravessar a Praça, junto à igreja matriz da capital de São Tomé e Príncipe, cruzei-me com uma jovem que, simpaticamente, me cumprimentou, como se nos conhecêssemos há muito tempo.
Devolvi o cumprimento, sentindo-me bem tratado. Nesta troca de palavras, não pude deixar de reparar nos chinelos que a jovem levava enfiadas nos seus pés. Uma sola branca, simples, de borracha, com duas hastes plásticas que envolviam um dos seus dedos. No cimo de cada haste, exibia-se um símbolo da bandeira portuguesa. Tudo impecavelmente limpo e cuidado. Um chinelo bem português… segui o meu caminho, para a Residencial Avenida, mas não deixei de pensar neste acaso daquela noite são-tomense. Uma jovem que me cumprimentou, num português, correto, educado e simpático, enquanto exibia, publicamente, na sua indumentária, um símbolo do meu país.
Esta é uma marca do povo de São Tomé e Príncipe: educação e amizade por Portugal e pelos portugueses. Os são-tomenses são um povo extremamente educado e simpático. É muito frequente, nas ruas, nas lojas e nos espaços públicos, as pessoas cumprimentarem o visitante, com um bom dia ou uma
boa tarde. Sempre com um sorriso, embora não muito expansivo. Por outro lado, sente-se a amizade que as pessoas mostram pelos portugueses, nos mais pequenos gestos e na forma como somos acolhidos e tratados.
Aquela jovem poderia fazer o que muitos jovens e adultos fazem, numa noite qualquer, em qualquer cidade de Portugal: seguir o seu caminho e tratar, com indiferença, os que se cruzassem no seu caminho. Ao cumprimentar-me, fez-me recordar o que sinto, quando ando pelas ruas das pequenas aldeias e vilas do nosso país, locais onde as pessoas ainda se cumprimentam umas às outras, independentemente de se conhecerem ou não.
Já quanto aos chinelos, a situação é diferente. Os são-tomenses gostam de Portugal e não têm problemas com a sua história, muito pelo contrário. Sabem, por vezes, melhor do que os portugueses, que pertencemos todos à mesma família, que fala português e possui uma história comum de muitos séculos, que não se esquece e se continua a escrever todos os dias. Quando cheguei à Residencial Avenida, poucos metros mais à frente, conclui, afinal, que aquilo que tinha acontecido, minutos antes, tinha sido, simplesmente, a troca educada de cumprimentos entre duas pessoas da mesma família. Um cumprimento, pelas vinte e duas horas de uma certa noite de Outubro de dois mil e dezoito, numa ilha do Golfo da Guiné, mesmo junto ao Equador.
Senti-me como se estivesse na minha terra, São Miguel de Machede…

Opinião dos nossos leitores

Dê-nos a sua opinião

Incorrecto
NOTA: As opiniões sobre as notícias não serão publicadas imediatamente, ficarão pendentes de validação por parte de um administrador.

NORMAS DE USO

1. Deverá manter uma linguagem respeitadora, evitando conteúdo malicioso, abusivo e obsceno.

2. www.alentejohoje.com reserva-se ao direito de eliminar e editar os comentários.

3. As opiniões publicadas neste espaço correspondem à opinião dos leitores e não ao www.alentejohoje.com

4. Ao enviar uma mensagem o utilizador aceita as normas de utilização.