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Alentejo Hoje

Ciclo de entrevistas sobre a luta contra a pobreza

Presidente do Município de Évora defende que “para ‘atacar’ a pobreza é necessário combater a distribuição desigual do rendimento”

Em outubro, a luta contra a pobreza esteve em foco, já que no dia 17 desse mês se assinalou o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. No âmbito da efeméride, decorreram diversas iniciativas com o objetivo de chamar a atenção para a necessidade de combater esta problemática.

Marina Pardal

12 Novembro 2015 | Fuente: Redacção D.S.

No entanto, o debate sobre a pobreza e a exclusão social não se pode concentrar apenas em torno de datas simbólicas. A sua discussão tem de continuar ao longo de todo o ano, pois a pobreza é sentida diariamente por aqueles que lutam contra ela.

Nesse sentido, o grupo Diário do Sul desenvolveu um ciclo de entrevistas com várias entidades que lidam, direta ou indiretamente, com este flagelo.

A primeira dessas “conversas” foi com o presidente do Município de Évora, Carlos Pinto de Sá, que deu a conhecer algumas das políticas em que a autarquia aposta para fazer frente a este desafio.

Antes de destacar algumas dessas ações, o autarca começou por realçar o foco deste problema no panorama nacional. “Para sabermos atacar a pobreza temos de conhecer as suas causas e as causas da pobreza não são uma fatalidade, nem algo que escapa à sociedade humana”, referiu, focando que “têm a ver naturalmente com a organização da sociedade e com a distribuição de rendimentos, com o emprego e desemprego, ou seja, há um conjunto de causas que levam à pobreza”.

A esse respeito, recordou que “Portugal é um dos países onde a distribuição de rendimentos é mais injusta em termos europeus”, constatando que “há uma concentração da riqueza em muitas poucas famílias, o que naturalmente leva a que a grande maioria da população não receba essa riqueza”.

A título explicativo, Carlos Pinto de Sá frisou que “em 2009, existiam 1,8 milhões de pobres em Portugal, de acordo com uma estatística europeia, e hoje temos 2,7 milhões de pobres”, considerando que estes dados “são percetíveis já que houve quebras brutais nos rendimentos das pessoas, mas curiosamente algumas das nossas maiores fortunas viram o seu espólio aumentar ainda mais”.

De acordo com o autarca, “no caso de Évora, há um número que eu julgo que traduz a situação dramática que temos aqui, nós temos mais de um terço da população (cerca de 17 mil pessoas), pensionistas, reformados e idosos, que recebe em média um rendimento na ordem dos 338 euros”.

Disse ainda que “chamo a atenção para Évora porque este é o concelho que no Alentejo está no topo, todos os outros concelhos alentejanos estão abaixo deste valor”.

Para Carlos Pinto de Sá, “quem quiser atacar verdadeiramente o problema da pobreza em Portugal tem de mexer na estrutura da sociedade e combater a desigual distribuição do rendimento e da riqueza que existe”, acrescentando que “temos de criar uma sociedade que garanta emprego e proteções sociais capazes”.

No entanto, “isso não significa que as políticas locais, quer dos municípios, quer das instituições, não sejam importantes, pois são elas que ajudam a dar resposta aos problemas do momento, já que não se pode ficar só à espera que se resolva o problema da sociedade”, alertou.

A esse respeito, o presidente da Câmara de Évora explicou que “nós temos em Portugal uma rede social constituída pelos municípios, pelas Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e outras organizações, que se não existisse, o problema da pobreza no nosso país teria uma dimensão muito maior”.

Papel da Rede Social
do Concelho de Évora

Adiantou ainda que, “em termos da câmara, fizemos uma aposta na Rede Social do Concelho de Évora que reúne várias dezenas de instituições que têm uma participação na área social a diferentes níveis”, sublinhando que “nestes dois meses conseguimos alargar substancialmente a rede e o trabalho que tem vindo a ser feito, dando-lhe também mais conteúdo”.

Na sua perspetiva, “as instituições não podem concorrer entre si para dar apoio às pessoas necessitadas, é preciso identificar o problema para que se possa definir em conjunto qual é a resposta, juntando recursos de várias instituições e procurando respostas comuns”.

Carlos Pinto de Sá esclareceu também que “a câmara tem o papel de coordenadora da rede social”, exemplificando que “atualiza o diagnóstico social, pois precisamos de conhecer a realidade para dar uma resposta, a par de ouvir as opiniões das associações no sentido de promover políticas municipais neste âmbito”.

Uma das políticas municipais que o edil salientou foi a da habitação. “Nós temos uma empresa municipal, a Habévora, que faz a gestão das casas sociais do município, gerindo um património de quase 900 casas”, referiu, frisando que “temos mais de 140 famílias em primeira prioridade para atribuir casa, quando tivermos casas disponíveis”.

Num outro nível, o da educação, o autarca criticou “o corte que ocorreu no ensino, nos últimos quatro anos, em relação aos alunos carenciados, que levou a que as compartições do Estado fossem reduzidas”, assegurando que “aqui em Évora, apesar das dificuldades da câmara, assumimos a parte que o Estado não comparticipa”. Evidenciou também “o banco de manuais escolares promovido pela autarquia, que ajuda a reduzir as despesas associadas ao início de cada ano letivo”.

Para finalizar a conversa, Carlos Pinto de Sá destacou “o papel que as associações de reformados, pensionistas e idosos fazem”, sublinhando que “têm os seus centros de convívio, dinamizam encontros e passeios ou ajudam a quebrar o isolamento e que, em muitos casos, trabalham praticamente sem dinheiro, com pequenos apoios e na base do voluntariado”.

A par disso, mencionou ainda “as associações que respondem ao problema da fome e não estamos a falar apenas de pessoas sem habilitações, como muitas vezes se pensa, pois há licenciados, por exemplo, que perderam os seus meios de subsistência e têm recorrido a este tipo de instituições”.

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