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Alentejo Hoje

José Robalo, presidente da ARS Alentejo

“Os hospitais não são estruturas rígidas, devem adequar-se às necessidades”

No regresso do “Conversas Soltas” à Telefonia do Alentejo, José Robalo, presidente da Administração Regional de Saúde do Alentejo, falou do sector que dominou a agenda mediática no final de Janeiro. “Os hospitais não são estruturas rígidas, devem adequar-se às necessidades. Devem “abrir” e “fechar” camas em função da procura”, defende, nesta entrevista ao Diário do Sul e à Telefonia do Alentejo. Num perí

Carlos Trigo

12 Fevereiro 2015 | Fuente: Redação D.S.

Diário do Sul/Telefonia do Alentejo - As últimas semanas foram marcadas por notícias de períodos alargados de espera nas urgências hospitalares e de escassez de médicos de família nos centros de saúde. Mesmo não sendo estes problemas exclusivos do Alentejo, estará o SNS perto da rotura?

José Robalo – Não! Há períodos de maior dificuldade, a procura varia e, muitas vezes, pontualmente, há alguma dificuldade. No Alentejo, não tivemos uma preocupação muito grande relativamente ao aumento da procura. Esse aumento não foi muito significativo, mas verificou-se que, em determinadas alturas, houve um fluxo maior de doentes a chegar aos hospitais, o que, pontualmente, resultou num maior período de espera, a que os profissionais corresponderam com uma resposta adequada. Se olharmos para os tempos de espera em termos semanais verificamos, de facto, que não existe uma grande diferença relativamente ao que são os tempos recomendados. Pontualmente, é certo que se verificaram algumas dificuldades, com um maior fluxo de utentes a determinadas horas.

Nos últimos anos, fruto da crise, foi necessário reduzir despesas. Os “cortes” afectaram o funcionamento dos serviços?

Penso que não terá uma relação directa, a diminuição das despesas com a saúde foi muito à custa de medidas administrativas, algumas delas relacionadas com os custos dos medicamentos. Se olharmos para a redução dos custos com medicamentos verificamos que a compressão de preços determinada pela negociação entre o Ministério da Saúde e a indústria farmacêutica traduziu-se, de facto, uma redução da despesa. Obviamente, que houve alguma dificuldade relativamente à contratação de alguns profissionais, ou em relação às horas extraordinárias, o que se traduziu numa menor capacidade de atracção de alguns profissionais.

Não faria mais sentido, regressar à contratação directa de médicos ou enfermeiros, sem recorrer à contratação por intermédio de empresas?

As empresas são soluções transitórias que esperemos não se tornem definitivas. Temos uma grande dificuldade na contratação de profissionais no Alentejo, em alternativa surge a contratação de prestação de serviços. Reconheço que não é uma solução, mas um remendo. Nestes dois anos, abrimos concurso para mais de 350 profissionais na área médica, conseguimos fixar apenas 55. Ganha-se o mesmo no centro de Lisboa ou no Alentejo… Não tem sido possível criar uma discriminação positiva para fixar médicos. Estamos a tentar um subsídio de instalação durante três anos para os cativar para zonas mais periféricas.

O que falta para desviar das urgências muitos utentes cuja situação de saúde não representa efectivamente uma urgência. Alargar o horário dos centros de saúde pode ser uma solução?

Todos os centros de saúde funcionam das 8:00 às 20:00 e existe uma capacidade instalada muito significativa e não faz muito sentido, excepto em casos especiais, as pessoas recorrerem às urgências sem passarem pelas unidades de saúde familiar. Se verificarmos os últimos dados, deparamos com uma redução do número de doentes que recorreram às urgências e um aumento nos centros de saúde. Em relação ao distrito de Évora, os horários actuais respondem à necessidade da população, o que não significa que, em caso de necessidade, não seja possível estender esse mesmo horário. Para o hospital devem ficar as situações mais críticas. E ao hospital chegam, muitas vezes, doentes idosos, com muitas patologias. Temos alguns centros de saúde com competências reforçadas. Por exemplo, Montemor-o-Novo, Vendas Novas e Estremoz contam com raio x, mas não temos capacidade de ter estes equipamentos em todos os centros de saúde.

Numa região com uma população envelhecida, a saúde assume uma importância bem definida. Estará o SNS adaptado às necessidades específicas de um sector da população de idade mais avançada, por vezes sem apoio familiar?

Vamos ouvindo que se reduziram as camas nos hospitais. Ao mesmo tempo que se “fecharam” cerca de 100 camas nos hospitais “abriram-se” 760 camas em cuidados continuados. Os hospitais não são estruturas rígidas, devem adequar-se às necessidades. Devem “abrir” e “fechar” camas em função da procura.

O novo hospital de Évora, ainda em projecto, tem sido, ano após ano, adiado. Nas condições actuais, e tomando por exemplo um serviço de urgências onde por vezes faltam as macas, não estará o hospital à beira da rotura?

Este hospital cresceu de uma forma incrível. Aumentou em número de profissionais e em número de especialidades. O hospital (dois edifícios) está dividido por uma estrada, o que o torna menos eficiente. Para o Ministério da Saúde, concretizar o novo hospital continua a ser um objectivo.

É compreensível que uma maca dos bombeiros fique “presa” num hospital durante horas?

Não, isso não é compreensível, nem se justifica.

Dostoyevsky, Kundera, José Mário Branco e Natália Correia

O livro que marcou a juventude de José Robalo foi “Crime e Castigo”, de Fiodor Dostoyevsky. A este título, o presidente da ARS Alentejo junta a “Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera.

José Robalo, 58 anos, nasceu em Lisboa e licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Mestre em Sociologia (variante de Recursos Humanos e Desenvolvimento Sustentável) pela Universidade de Évora, integrou a carreira médica de clínica geral em 1985, sendo especialista em medicina geral e familiar. Foi médico de família e dirigiu os centros de Saúde de Estremoz e Viana do Alentejo, passou, como sub-director, pela Direcção-Geral de Saúde, e preside ao Conselho Diretivo da ARS Alentejo desde Outubro de 2011.

Em termos musicais, a escolha de José Robalo recaiu num dos mais marcantes trabalhos discográficos de José Mário Branco – “Ser Solidário” - pela “emoção” sentida no espectáculo (Teatro Aberto, em Lisboa) de apresentação deste trabalho. Robalo destaca ainda as interpretações de José Mário Branco em temas como “FMI” e “Queixa das Almas Jovens Censuradas”, este último tema baseado num poema de Natália Correia.

Recorde-se que nas “Conversas Soltas”, os entrevistados são convidados a escolher um livro e uma música com especial significado nas suas vidas.

O programa “Conversas Soltas” é emitido na Telefonia do Alentejo (103.2 FM) aos domingos, a partir das 13:00.

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